Segunda-feira, Maio 19, 2008

cólera em tempos de amor

ajeito-lhe o lençol à altura do ombro, ela aperta-me a mão, sorri, eu digo baby i'm so alone vamos pra babylon, ela diz que não, que fica.

o ponto da citação

estou começando a perder
o medo que tenho das pessoas

já pego na mão
da minha namorada


nicolas behr, chá com porrada, 1978

Sexta-feira, Maio 16, 2008

brasil - a música nunca se acaba

hamilton de holanda quarteto (que tive o prazer de ver no festival de músicas de mundo, em sines e só agora reencontrei).

brasil - a música nunca se acaba

andré juarez quartet

Terça-feira, Maio 13, 2008

as lites

tivera uma amigdalite tão forte que nem hóstia entraria.

Segunda-feira, Maio 12, 2008

carta

o acordo ortográfico passa-me ao lado, por cima, por baixo, desinteresse meu, não estou incomodado que me mexam na língua, mexam pois que eu próprio gosto muito de mexer na língua com a língua e depois erecto ou ereto tanto me faz, o importante é ter tesão para levar a vida e dissipar as nuvens negras, tantas, e tantas vezes sem razão, no blogocubo também quem se tenha a teorizar, mas a paciência falta, a minha não anda em alta e também quase não clico em jornais portugueses, pouco sei que se passa por aí, se o mário soares morreu, se o santana é de novo o maior, quem deitou a mão ao quê, quem tem o bolso mais fundo, o meu está roto, os próprios blogues olho diagonalizado, sempre muito apressado, para quê tanta pressa? eu sei lá. o trabalho todo feito nas coxas (é o nosso "em cima do joelho", vem de quando os escravos, ao fabricar as telhas de argila, em vez de as moldarem na forma, sentavam-se e moldavam-nas sobre a coxa, ficando as ditas dissimilares entre umass e outras - sem necessidade de acrescentar que daí adviria mailogo chibatada, e merecida, muito justa, que é lá isso?), o trabalho todo feito nas coxas, o tempo nunca chega e sobra, os ponteiros andam inquietos - acho que ando a ser roubado em cerca de duas/três horas por dia, não sei se é da idade, se isto não vai parar ou até se tem tendência a piorar, menos mal que num instante é fim-de-semana, mas às vezes cansa-me o fim-de-semana porque se resume à noite de sexta e ao sábado, o domingo é fodido, ao fim-de-semana não vejo a minha índia, o domingo continua a ser fodido e eu não tenho fodido a minha índia, mas este domingo hei-de inventar um domingo que não me foda. a lagoa está cheia de gente ao domigo, há uma feirinhinha no centrinho da lagoa ao domingo, fiozinhos brinquinhos pulseirinhas incensinho insensatos radicais livres livros usados os livros são para se usar cães tapioca gostosa quentinha quadros de rembrandts da valeta e coisital, musiquinha aqui e ali, tudo filhos de um deus menor. e os cafés as esplanadas cheias, e os cafés com televisão cheios de gente e mais gente em pé tudo aos saltos a rimbombar tambores, em clamores, em olés olás e uis qui foda é gol e saltam e rufam os tambores agitam cachecóis arrastam mesas entornam garrafas é gol caralho solta foguete é um domingo todo de foguetes e futebol. e um homem por vezes sem fôlego sem fogo. punheta e sesta que se faz tarde.

o boletim meteorológico, a nuvem cinzenta, que fazer, amigo? a tenaz a roer as entranhas, como dar um soco no próprio estômago?

eukanuba! apetece-me gritar: eukanuba!


este abraço a tirar o pé do chão,

o bailarino manco.

Sexta-feira, Maio 09, 2008

o ser humano

não sei fazer mais que o mínimo. mas, nisso, sou o máximo.

paradoxos da higiene

comprei um desodorizante que, na pele, me cheira a suor. merda.

acordar
descer a balaclava sobre o rosto
filtrar a luz do dia com o umbigo

Terça-feira, Maio 06, 2008

coisas da esfera

Miguel diz:
n gosto muito que as pessoas com quem me dou leiam o blogue
Susana diz:
desculpa...mas ía acabar por dizer-te...
Miguel diz:
porque o blogue n é literatura, é uma cena mais de efeitos e disparates avulsos
Susana diz:
sim...
Miguel diz:
e depois já me deixaram de falar por causa de certas merdas porque n perceberam a intenção (ou a falta dela)... é um bocado chato
(...)
Miguel diz:
depois perde-se espaço de manobra pra escrever... raramente escrevo verdades no blogue, mas agora, se aproveitar uma merda qualquer que tenha a ver vagamente contigo ou assim, chateias-te comigo, vais-me às trombas
Miguel diz:
fazes trinta por uma linha

páginas diarísticas

nada pior nestas circunstâncias que um homem se apaixonar. vá, concedo: ser atropelado por um camião. e mesmo aí tenho as minhas dúvidas.

para quando?

as havaianas que comprei faz tempo - número acima, grandes. as botas para levar o inverno - número abaixo, pequenas, apertam-me. quando bebo é excessivamente; o amor - à míngua. para quando a justa medida nesta vida?

deus é brasileiro

aceito sem hesitar que deus seja brasileiro - as ciladas que me vem armando são pura má-vontade para com o colonizador.

homesick green peas

das minhas manias

para n. de c.,
com saudade muita


"traçando comigo um ensopadinho à mineira num botequim vagabundo de Urca, sérgio porto pediu dois ovos fritos e me deixou um dos seus aforismos mais simples e verdadeiros: em matéria de comida, não há nenhuma porcaria que dois ovos em cima não melhorem."

millôr fernandes

amor & economia

amar sai-me mais caro que ir às putas - deve ser isto que chamam a economia dos afectos.

hermenêutica

- e aí, taí, daí, né?
- tá, então, daí, taí, né?
- é, acho que sim.

quem teve a mão decepada
levanta o dedo

nicolas behr

novos provérbios

antepassados não movem moinhos.

o ponto da citação

minha irmã natural se desenvolvia, recebendo com freqüência arranhões nos melindres. a aversão que inspirava traduzia-se em remoques e muxoxos; quando tomava feição agressiva, fazia ricochete e vinha atingir-nos. se não existisse aquele pecado, estou certo de que minha mãe teria sido mais humana. de fato meu pai mostrava comportar-se bem.

graciliano ramos, infância

choque de gerações

aos 13 anos, com um par de seios novinhos, ela percebeu que seu corpo já não cabia mais na moral dos pais.

millôr fernandes

cepticismo

sou um completo cético - exceto quando vejo o amanhecer em ipanema e, ondulando no calçadão, uma daquelas maravilhas femininas de 13 anos, que dormiu menina e amanheceu mulher.

millôr fernandes

o luxo possível

- você se dá ao luxo de escrever qualquer besteira.
- eu gosto muito do luxo.

Segunda-feira, Maio 05, 2008

barca dos livros

fui à biblioteca quase familiar da lagoa, onde moro, cujo café tem um belo quindim. depois subi para a biblioteca propriamente dita, que tinha muita tralha para pôr em ordem quando, sobre a mesa, um álbum do david hamilton. ó senhores! fiz-me membro de imediato.

- quantos posso requisitar?
- dois.
- levo este e este.
- os de arte não pode levar para casa.
- e para o banheiro?

Sábado, Maio 03, 2008

notas íntimas e de auto-confusão

isso, minha querida, são três coisas que, para serem boas, têm que ser muito bem feitas.

ponto final

não tens o direito de, era algo que repetia muito. não só porque achava que ela não tinha, de facto, o direito de, mas também porque gostava mesmo de dizer: não tens o direito de.
então escreveu: não tens o direito de. e continuou: não é justo. era uma carta, e não fosse o desusado do termo, dir-se-ia uma carta de amor. ou de desamor, olhando de outro ângulo. de dor: de cotovelo, de corno. de qualquer forma, para que fique claro, ela não tinha o direito de. que não era justo. para com. ele.
que viviam uma relação atípica, ele nem amante era - à mingua de sexo entrambos. portanto - e por tão pouco - ela não tinha o direito. será que não entendes que todos os planos e conjecturas de habitar esta cidadela semi-selvagem são para ficar contigo?, batia no teclado plástico e sujo do computador, germes, bactérias, micróbios, parasitas. apeteceu-lhe escarrapachar três impropérios de seguida, mas conteve-se: aquilo era uma carta de amor, olhasse do ângulo que se olhasse, esclarecia.
a moral é uma fraqueza da cabeça, e o amor, meu amor? vou-me embora, este edifício vai ruir, não porque me vou embora, mas por ser insustentável, o insustentável peso do ser quem sou, quem és, vou fugir para me salvar, não te convenço com o meu amor. um romântico invertebrado, ele. ela apenas invertebrada.
que há coisas que não podemos, não conseguimos controlar, por mais que culpe os românticos pela tradição que herdara - a culpa era deles - só lhe restava correr para não sucumbir ao desvario da paixão.
não tens o direito de. não é justo para.
amo-te, amo-te tanto quanto abomino a tua conduta, amo-te mais, achou-se no dever de elucidar, não fosse o diabo tecê-las, e se o cabrão às vezes gosta de as tecer.

canções contrafeitas

o meu amor tem um jeito manco que é só seu.

chico buarque, o meu amor

o cantinho do narciso

azeite&azia, modelando altares que parecem
prostíbulos.

amor e prioridades

- que vais fazer com o meu amor?
- tenho mais que fazer.

ternura

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada…

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio…

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo…

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!


david mourão-ferreira

casos

não quero um caso contigo, quero um casarão.

relações pós-modernas

para a t.

ainda vamos terminar juntos, um fora de prazo, outro de pantufas: um rondando escolas primárias, outro invadindo lares de idosos.

relações e estética

enquanto for um sinal e não uma verruga
será amor
no final não desejarei que seja outra coisa:
um fulminante tumor.

quando dizes
deixa-me chupá-lo
eu todo me eriço
caixeiro-viajante

Quinta-feira, Maio 01, 2008

carta do exílio

..........................................................................................................................................................Florianópolis, SC, Brasil, 15 de Abril de 2008





minha terra tem palmares[1]
e demasiados políticos no poleiro
cantando como sabiás –
e eu farto de seus cantares

e da gente que caminha de olhos no chão
e deixa escorrer o tempo em esquinas
esperando dom sebastião

farto das falcatruas, do diz que disse, da desrazão
e de que sigamos pensando que somos grandes
e temos o mundo na palma da mão

ó meu rectângulo empedrado à beira-mar plantado[2],
serás tu um país ou uma missão?


portugal, às vezes apetece-me beijar-te na boca[3]
minha língua roçar na tua raça
mas tu não tens braços a medir
para o meu corpo que cresceu

apetece-me segredar-te baixinho, sussurrar-te – vem
venho amar-te, ficar contigo[4]
mas quando te falo ao ouvido
só me ocorrem palavras sujas
...............................................................e gastas como

as pedras das esquinas
das esperas inúteis[5]
os nossos rostos pardos
os relógios parados
...............................................................portugal,

há um atlântico oceano a separar-nos
e por vezes vejo tua sombra insinuar-se
e por vezes sinto o teu cheiro assomar-se
..............não-sei-se-é-a-tua-boca-proferindo-falsas-promessas-se/
..............é-pelo-facto-de-aqui-não-haver-saneamento-básico-mas

ainda assim noto mais asseio
quando me tentam enganar

e aquela nativa que me tem cativo[6]
não me quer deixar voltar
será desta que o marinheiro
nunca mais se faz ao mar[7]?


não insistas: sabes bem que não regresso,
mesmo que aqui não fixe meu endereço:
que esta carta fora do baralho
a voltar é pra morrer;
ressabiado, não queiras disso tirar prazer –
se volto é apenas para te dar trabalho.



¡QUE VIVA ESPAÑA![8]









[1] S.m., palmeiral; v. tr., empalmar, furtar.
[2] Cf. Tomás Ribeiro: Jardim da Europa à beira-mar plantado/ de loiros e de acácias olorosas...
[3] Cf. Jorge de Sousa Braga, “Portugal”, O poeta nu.
[4] Cf. Nuno de Castro (impossível conferir, pois à data ainda não foi publicado).
[5] Cf. Eugénio de Andrade, “Adeus”, Os amantes sem dinheiro.
[6] Cf. Luís de Camões, “Endechas a Bárbara escrava”.
[7] Cf. Reinaldo Ferreira, “Menina dos olhos tristes”.
[8] Manolo Escobar, “Que viva Espana”.

* cf: canção do exílio, gonçalves dias; canção do exílio (meu lar), casimiro de abreu; carta de regresso à pátria, oswald de andrade; canção do exílio, murilo mendes; uma canção, mário quintana; nova canção do exílio, carlos drummond de andrade; "em cismar sozinho, ao relento...", eduardo alves da costa; sabiá, ant. carlos jobim e chico buarque; canção do exílio facilitada, josé paulo paes.
.
nb: cumpro aqui meu antigo desejo de escrever um poema contendo notas de rodapé. manias. de hoje em diante, só paro quando conseguir um poema cujas notas ultrapassem os versos em número. projectos.

parvoíces do azia ou um chopp a mais

- o que é, o que é?
- é massa.

é uma foda

quando no prazer de estar se quer intrometer a segurança de ter.

Terça-feira, Abril 29, 2008

arroz com feijão
arroz com feijão
arroz com feijão

virge maria que é isso cozinheiro?

sem laptop, mas a pensar que

i'm too sexy for my pen

ele há coisas

há cousas do demo. pagar quase o dobro do preço de lisboa por um expresso aqui; em estocolmo, comprava vinho argentino melhor e mais barato. há cousas do demo. ia tendo um piripaque quando vi um periquita a quase 10 euros no supermercado. mas o que me deixou um paralelepípedo no rim foi ver o casal garcia ainda mais caro. há cousas do caralho.

Segunda-feira, Abril 28, 2008

depois chamam os urubus



E se definitivamente a sociedade
só te tem desprezo e horror
E mesmo nas galeras és nocivo,
és um estorvo, és um tumor
A lei fecha o livro, te pregam na cruz
depois chamam os urubus

chico buarque, hino de duran





ilha do campeche, floripa

eisenbahn - escolha a cor da sua



praia do matadeiro, floripa

Sexta-feira, Abril 25, 2008

poesia - intrigante, assustador

sobre o acordo ortográfico


Pronominais



Dê-me um cigarro

Diz a gramática

Do professor e do aluno

e do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco

Da Nação brasileira

Dizem todos os dias

Deixa disso camarada

Me dá um cigarro.


Oswald de Andrade (1890-1954)

Quarta-feira, Abril 23, 2008

uma mão pode demorar uma hora a percorrer os dez centímetros que a separam de outra.

valadares conta e acrescenta um ponto

tinha tanta graça que, na cama, diziam, era de parti-la a rir.

Terça-feira, Abril 22, 2008

publicidade narcísica


don azia também anda por lá.

Domingo, Abril 20, 2008

um mundo catita - as minhas coisas favoritas

ponto da citação

Sexta-feira, Abril 18, 2008

pneumotórax


Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.<