sexta-feira, 16 de Outubro de 2009
da delicadeza
gosto da extremada delicadeza do português que, em não havendo cinzeiro, apaga o cigarro dentro da chávena de café.
terça-feira, 13 de Outubro de 2009
eleições - pt - 2009 II
é tamanho o descaso popular pela eleição atual que só existe uma forma de fazer o povo voltar a se interessar: dar vinte anos de cadeia pro candidato mais votado.
millôr
segunda-feira, 12 de Outubro de 2009
eleições - pt - 2009
comentário-citação:
candidato reconhecidamente salafrário, grosseiro, corrupto e semi-analfabeto. o adversário só ganhou as eleições porque era pior.
candidato reconhecidamente salafrário, grosseiro, corrupto e semi-analfabeto. o adversário só ganhou as eleições porque era pior.
millôr fernandes
domingo, 11 de Outubro de 2009
o gajo era um bocado infantil. enquanto os outros já andavam no indie porn, ele ainda não tinha saído do child porn.
obama aqui a ver s'eu deixo
obscuras razões. é a única explicação que eu tenho para o facto de ainda não me ter sido atribuído o nobel da paz.
sábado, 10 de Outubro de 2009
quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
domingo, 4 de Outubro de 2009
sobre falcao, n'o jogo
"(...) tratou-se de uma baixa muito importante porque estava a passar por um momento bárbaro e custou-nos muito jogar sem ele", contou.
a/c do tradutor: bárbaro és tu, ó filho da puta.
sexta-feira, 2 de Outubro de 2009
eu só quero que tu queiras
dar-me
quero que queiras dar-te
que te me queiras dar
a mim.
estou ansioso por me dar
dar-me
dar-me a ti
mas exijo que te dês
que te me dês
a mim.
dar-me
quero que queiras dar-te
que te me queiras dar
a mim.
estou ansioso por me dar
dar-me
dar-me a ti
mas exijo que te dês
que te me dês
a mim.
pátria
construo com glória e entusiasmo a minha pátria – quatro paredes caiadas, umas quantas janelas cerradas, uma porta blindada e trancada. fora deste forte uma bandeira rota feita por mim, bandeira essa que me nomeia. dentro deste forte alguém que a bandeira não revela, alguém que se esconde na verdade do que fala. alguém que está só.
sábado, 26 de Setembro de 2009
oi
tenho o cigarro a meio, o último de hoje, mas deve dar para um post, um post curto, como os dias. se der enter, já está. se backspace, já foi. na verdade, é só um oi.
que já foi, que já foi, que já foi.
que já foi, que já foi, que já foi.
sábado, 19 de Setembro de 2009
estimados clientes
o tasco parece algo abandonado, eu sei. um projecto anda a arrebatar-me as horas - dele vos falarei mais adiante. por agora, dizer que estou aqui, ainda que sem stock, com as garrafas de pinga vazias.
está a fermentar. que a seguir seja pra rebentar. fazer a festa, a festa, a festa. tão bom. a sesta, a sesta. também.
está a fermentar. que a seguir seja pra rebentar. fazer a festa, a festa, a festa. tão bom. a sesta, a sesta. também.
terça-feira, 1 de Setembro de 2009
sábado, 29 de Agosto de 2009
quarta-feira, 26 de Agosto de 2009
quinta-feira, 20 de Agosto de 2009
da polícia federal, sc - ser estrangeiro
a moça da recepção só fala uma língua, a sua, e há sempre muito ruído, por causa dos estrangeiros que não falam a língua dela, é que a táctica da guria é falar mais alto, a ver se percebem, os gringos, são brutos como tudo.
eu, vá lá, falo mais ou menos a língua. mas com serviços destes também não há muita conversa.
depois de pedida a permanência por cônjuge, é necessário aguardar visita dos agentes da polícia federal. a gente aguarda. no meu caso, foi dez meses. e, quando os malandros aqui vieram, eu não estava cá. vou lá para saber o como é, o e agora. agora tenho que aguardar nova visita. e se demorar dez meses? e se eu tiver saído para comprar o jornal? tem que aguardar nova visita. e se? então deixa de ser casa, passa a prisão. ela encolhe os ombros e estiraça a beiça, berrando depois para o moço alemão que chegou para fazer intercâmbio.
contava geberit
dei acordo de mim estava de quatro, a perna alçada de encontro ao sofá, contava geberit.
terça-feira, 18 de Agosto de 2009
segunda-feira, 17 de Agosto de 2009
disse geberit
estou com uma centelha divina que não vos digo nada, disse geberit ao descer a escada. e depois calou-se.
sábado, 15 de Agosto de 2009
segunda-feira, 10 de Agosto de 2009
as aventuras de geberit, o cepticínico, e liliputa, a anã gostosa
ainda que ela sempre tenha dito que, nos termos do prazer, no dar e receber, era uma gigante. ela dizia giganta, e não sou eu quem vai escrever doutra forma. uma giganta das arte e orifícios. lembrar de aplicar o hedonismo ao quotidiano, lia-se na tela do pc, em jeito e forma de post-it. conheceram-se quando se mudou para o apartamento ao lado de geberit: madame lili, muito prazer. geberit, bem vinda. olhou-a, contrariando o seu hábito, de baixo a baixo, o chapéu de plumas, a blusa estampada com uma hera, a saia rodada com motivos orientais.
to be continued...
quinta-feira, 6 de Agosto de 2009
segunda-feira, 3 de Agosto de 2009
quarta-feira, 15 de Julho de 2009
quem não trabuca manduca mais
não só de férias mas também. a passeios, mais que a banhos, que o tempo não tem estado para aí virado, só banhadas e umas banhas a mais a pedir workout aquando do check-out (look out!). lisboa está de se comer à dentada - pena, e vem-me a brincadeira fácil mostarda ao nariz - ter tantos portugueses. enfim, um país de malucos, fácil de ver nos rostos, nos pés, nos tiques e trejeitos. chega a meter medo.
entre tanto menear de anca e gastar a sola da havaiana na lusitana calçada, a escrita encontra-se minguada. mas a uma mini ou média não digo que não. a um verde, a um branco, a um tinto também não. assim que me vem uma ideia à cabeça, peço logo um pires de caracóis. essa amêijoa está a sair ou não?
entre tanto menear de anca e gastar a sola da havaiana na lusitana calçada, a escrita encontra-se minguada. mas a uma mini ou média não digo que não. a um verde, a um branco, a um tinto também não. assim que me vem uma ideia à cabeça, peço logo um pires de caracóis. essa amêijoa está a sair ou não?
segunda-feira, 29 de Junho de 2009
sexta-feira, 26 de Junho de 2009
quarta-feira, 24 de Junho de 2009
quem faz um filho
dizia a gorda barbada sorvendo o caracol, abocanhando a imperial com groselha, com a recém-nascida de um lado e a outra, ainda criança mas já com peso de elefante no outro, já um pote, e dizia a gorda barbada sorvendo o caracol, com a recém-nascida ao lado: antes um filho que uma doença má.
passeios e asseios públicos
passeando sem pressa nem rumo por cacilhas, paro para ler as gordas dos jornais quando, de súbito, o olho cai na playboy e na playboy uma ana malhoa que dizem "sexy, como nunca antes". mas querem estragar-me as férias em terra lusa, é isso?
terça-feira, 16 de Junho de 2009
segunda-feira, 15 de Junho de 2009
agora o que me apraz dizer é isto
| São Paulo (GRU) | Lisboa | 16 Jun, 17h10 | 17 Jun, 06h55 | Económica | 2 pieces |
sexta-feira, 5 de Junho de 2009

começa hoje. agora é partir a loiça toda.
a/c pessoal informatizado da favela e judeus: é grátis.
não chegamos num "cadillac 52" - já estamos aí.
a/c pessoal informatizado da favela e judeus: é grátis.
não chegamos num "cadillac 52" - já estamos aí.
domingo, 31 de Maio de 2009
teclado novo
detesto estes teclados novos onde o back space é apenas mais um quadradinho. na escrita, a grande vantagem do computador sobre a máquina de escrever está em este ser uma irrepreensível máquina de apagar.
quinta-feira, 28 de Maio de 2009
quarta-feira, 27 de Maio de 2009
terça-feira, 26 de Maio de 2009
domingo, 24 de Maio de 2009
aos domingos com o guru do meier
aids
doença imoral que ataca minorias sexuais pra que elas aprendam que isso não se faz, e deus castiga. dá também e machões para aprenderem a não ser preconceituosos, porque deus também castiga. deus castiga tudo.
millôr
sexta-feira, 22 de Maio de 2009
kid alfinete
à espera do dentista (continuamos na senda, pois então, que ainda só vou no dente provisório) pego numa isto é! antiga, cuja capa me chama a atenção. os riscos do sexo precoce - folheio-a curioso, já não vou a tempo, talvez por isso.
tenho para mim que os riscos são os do sexo tardio, mas deixai-os perorar. sobre tudo eles querem perorar. eles querem perorar, sobretudo. deixai-os.
ibirubá (rs): o menino a e a menina k, de tenra idade e tenras carnes, foram fazer malandrices pro quarto e o amigo filmou com o telemóvel. a coisa espalhou-se pela net, e deixou a pequena cidade em polvorosa. taí a reportagem. para os mais curiosos (chama-lhe nomes), aqui fica o link para o vídeo.
em referência à genitália do moço, alguém o apelidou de kid alfinete. depois é a velocidade das coisas. no orkut, a comunidade; o vídeo com esse nome. acho que não se sobrevive a um epíteto desses. tenho pra mim que esse kid alfinete nunca mais s'endireita.
tenho para mim que os riscos são os do sexo tardio, mas deixai-os perorar. sobre tudo eles querem perorar. eles querem perorar, sobretudo. deixai-os.
ibirubá (rs): o menino a e a menina k, de tenra idade e tenras carnes, foram fazer malandrices pro quarto e o amigo filmou com o telemóvel. a coisa espalhou-se pela net, e deixou a pequena cidade em polvorosa. taí a reportagem. para os mais curiosos (chama-lhe nomes), aqui fica o link para o vídeo.
em referência à genitália do moço, alguém o apelidou de kid alfinete. depois é a velocidade das coisas. no orkut, a comunidade; o vídeo com esse nome. acho que não se sobrevive a um epíteto desses. tenho pra mim que esse kid alfinete nunca mais s'endireita.
quarta-feira, 20 de Maio de 2009
olhó vídeo
do público. obviamente que não tem condições, mais não fora porque diz "tu nem sabes no que te metestes".
terça-feira, 19 de Maio de 2009
ruminações atlânticas
pois pá, pensei eu. se fizesse uma estatística dos meus pensamentos saberia que este é o que mais vezes me ocorre, um pois sílaba longa culminando num pá seco, bipolaridade que contém todo o mundo dentro e corta rente - à pazada - qualquer estrutura cognitiva que se predispusse a brotar.
pois, pá.
lembrei-me da coleguinha que dizia "eu tenho preguiça de pôr os acentos". se fosse hoje tinha-lhe espetado um soco no olho. tornei-me mais violento com o passar do tempo. lembrei-me dela não por socos nos olhos (que no bar aqui ao lado distribuem como o pingo doce distribui maçãs reinetas), mas porque escrevi a palavra sem acento e, quando olhei para ela, disse: não, pá, estou com preguiça, e ri-me sozinho, lembrei-me dela, a puta não punha acentos porque tinha preguiça, se fosse agora levava um soco no olho e um pontapé na boca. tornei-me mais violento com o passar do tempo.
pois, pá. mas eu não estava a falar disso. disso, não sei bem o quê. agora não lembro, mas vinha falar sobre qualquer outra coisa. não que eu saiba o que é esta, digo outra no sentido de... no sentido.
pois, pá. vou ali buscar uma cachacinha, talvez me lembre. dessoutra coisa, claro. não sei se me fiz entender. acontece-me bastante, nos últimos tempos. a mim, vejam bem, que não há só gaivotas em terra, não é isso: a mim que mesmo com toda a preguiça teimo em pôr os acentos nas palavras. e aquela filha-da-puta, eu se fosse hoje... nem sei que lhe fazia. tornei-me mais fanfarrão com o passar do tempo.
pois, pá.
depois eu até me lembrei do que ia dizer
fiquei a pensar quando ela disse: mas ele é só garganta, e depois pensei que ser só garganta é sempre muito diferente, por que não é o mesmo eu dizer da minha namorada: ela é só garganta, ou de um anão, por exemplo, com anão dizer isso é uma ofensa, é um problema, é uma chatice por que ele vai logo pôr-se em bicos de pés e a situação fica estranha, incómoda, sobretudo incómoda, cabrão do anão, só me faltava este agora, o caganito.
pois, pá.
lembrei-me da coleguinha que dizia "eu tenho preguiça de pôr os acentos". se fosse hoje tinha-lhe espetado um soco no olho. tornei-me mais violento com o passar do tempo. lembrei-me dela não por socos nos olhos (que no bar aqui ao lado distribuem como o pingo doce distribui maçãs reinetas), mas porque escrevi a palavra sem acento e, quando olhei para ela, disse: não, pá, estou com preguiça, e ri-me sozinho, lembrei-me dela, a puta não punha acentos porque tinha preguiça, se fosse agora levava um soco no olho e um pontapé na boca. tornei-me mais violento com o passar do tempo.
pois, pá. mas eu não estava a falar disso. disso, não sei bem o quê. agora não lembro, mas vinha falar sobre qualquer outra coisa. não que eu saiba o que é esta, digo outra no sentido de... no sentido.
pois, pá. vou ali buscar uma cachacinha, talvez me lembre. dessoutra coisa, claro. não sei se me fiz entender. acontece-me bastante, nos últimos tempos. a mim, vejam bem, que não há só gaivotas em terra, não é isso: a mim que mesmo com toda a preguiça teimo em pôr os acentos nas palavras. e aquela filha-da-puta, eu se fosse hoje... nem sei que lhe fazia. tornei-me mais fanfarrão com o passar do tempo.
pois, pá.
depois eu até me lembrei do que ia dizer
fiquei a pensar quando ela disse: mas ele é só garganta, e depois pensei que ser só garganta é sempre muito diferente, por que não é o mesmo eu dizer da minha namorada: ela é só garganta, ou de um anão, por exemplo, com anão dizer isso é uma ofensa, é um problema, é uma chatice por que ele vai logo pôr-se em bicos de pés e a situação fica estranha, incómoda, sobretudo incómoda, cabrão do anão, só me faltava este agora, o caganito.
domingo, 17 de Maio de 2009
sábado, 16 de Maio de 2009
a pedido de várias famílias e de dois calhaus à entrada do bloco c7, na avenida luís de camões, em miratejo
numa rua perto de si ou mesmo na sua
don azia - o regresso às ruas de lisboa
-e com uma sede-
-e com uma sede-
de 16 de junho a 5 de agosto
salvo erro
salvo erro
e até prova em contrário
quinta-feira, 14 de Maio de 2009
paradoxos
voltimeia oiço dizer que o país é um manadeiro de humor fácil. só não percebo é a porrada de gente sem graça nenhuma que abunda por aí.
quarta-feira, 13 de Maio de 2009
não esquecerei tão cedo aqueles joanetes
acabo de ser assediado por duas sessentonas no elevador. ainda estou em pânico, as mãos suando em bica.
a dúvida
- não é daqui, pois não?
- não, sou português.
- português? português de portugal?
- pois, acho que só há desses.
mas também eu começo a duvidar.
- não, sou português.
- português? português de portugal?
- pois, acho que só há desses.
mas também eu começo a duvidar.
terça-feira, 12 de Maio de 2009
segunda-feira, 11 de Maio de 2009
bom dia
entrei no autocarro, único vivente naquela paragem, sonâmbulo, a carpir mágoas e afazeres, quando o motorista me dá um sonoro bom dia que me desarmou completamente.
domingo, 10 de Maio de 2009
sempre que fala a turba arma virumque cano
seguimos cantando o ilustre peido lusitano
que o pleito acende e o odor ao gesto muda
seguimos cantando o ilustre peido lusitano
que o pleito acende e o odor ao gesto muda
aos domingos com o guru do méier
afinidade
quando duas pessoas odeiam a mesma pessoa, têm a impressão de que se estimam.
quando duas pessoas odeiam a mesma pessoa, têm a impressão de que se estimam.
millôr
sexta-feira, 8 de Maio de 2009
e ultrapassar os limites?
há uns tempos atrás, se o leitor quisesse parecer literariamente culto, eu aconselhar-lhe-ia: diga que tal autor - um qualquer que esteja um pouquinho ausente do mainstream - testa os limites da linguagem, ou os limites do romance. mas de repente parece que toda a gente deu em testar os limites da linguagem ou os do romance. quero dizer, de repente há uma porradão de anos; que escreventes testam e lactantes dizem que vacas testam, mesmo que seja de forma latente. mas agora repetido ao expoente, não da loucura, mas da náusea, e tão verde, a náusea.
os limites da linguagem e os limites do romance vão tão longe quanto a nossa falta de verbo. ou de verve, sei lá. para qualquer pato de peito inchado (vulgo chester literato) hoje um gajo dá um peido e já está a testar os limites da linguagem. ou engana-se, como o meu avô*, a contar a história - e já está a testar os limites do romance.
*avô meramente ilustrativo. não incluido no pacote da veracidade.
quinta-feira, 7 de Maio de 2009
terça-feira, 5 de Maio de 2009
"ai se fosse o meu"
chegou por trás, aprumado
e não foi de meias medidas:
nada de entrada por entrada
- foi entrada por saída.
e não foi de meias medidas:
nada de entrada por entrada
- foi entrada por saída.
maria cheia, ó cheia maria
maria cheia de raça
ficou sem graça
maria cheia do espírito santo
maria cheia
enchendo
às 8, às 11,às 13, às 17, às 20, às 23
maria cheia
maria enchendo
o bandulho
maria vai arrebentar pelas costuras.
ficou sem graça
maria cheia do espírito santo
maria cheia
enchendo
às 8, às 11,às 13, às 17, às 20, às 23
maria cheia
maria enchendo
o bandulho
maria vai arrebentar pelas costuras.
golden shower
pisei a cabeça do dragão
abri a braguilha, mijei-lhe
na boca antes que o cabrão
lançasse fogo, combustão
abri a braguilha, mijei-lhe
na boca antes que o cabrão
lançasse fogo, combustão
dois minutos
eu disse: cinco minutos para um poema
mas depois achei demais, eu arrumo isso
em dois ou três, eu disse
às vezes é isto:
dá-me para a fanfarronice.
mas depois achei demais, eu arrumo isso
em dois ou três, eu disse
às vezes é isto:
dá-me para a fanfarronice.
aristocracia falida
às vezes o decantar um vinho é um acto que ultrapassa o desespero de causa, porque um gajo sabe muito bem que mesmo que fique ali a respirar durante horas aquela merda não melhora.
segunda-feira, 4 de Maio de 2009
enologias
... mas já bebi vinhos piores que este - sobretudo quando estavam estragados.
singela homenagem ao tinto vô luiz, uva bordô, fabricado em 2008 e comprado sábado na feira do centro de florianópolis.
singela homenagem ao tinto vô luiz, uva bordô, fabricado em 2008 e comprado sábado na feira do centro de florianópolis.
domingo, 3 de Maio de 2009
se eu soubesse rabiscava
camões: desculpa lá, dinamene, não lavei a loiça do almoço porque estive a escrever o segundo canto dos lusíadas.
aos domingos com o guru do méier
está bem: deus é brasileiro. mas pra defender o brasil de tanta corrupção só colocando deus no gol.
millôr
sábado, 2 de Maio de 2009
meia tarde de sábado
por hoje chega de trabalho. não sou judeu, mas também não sou parvo.
venha essa caipira.
venha essa caipira.
porque hoje é sábado, amanhã domingo
às vezes dá uma vontade de botar faladura séria, erudita, tão erudita que me apetecia pôr-lhe um acento no u, acho que é o intestino cheio quem mais me ordena, mas vem-me este pudor de pudico, que é o que se arranja e a ver se o intestino não se desarranja, que é uma trabalheira, passei na feira aqui do centro de florianópolis, um sol já de inverno mas tão espesso que apetece moder, trincar, ferrar o dente numa dentada bíblica, passei e olhei e mandaram-me provar a linguiça fumada de blumenau, ao que eu obedeci prontamente e disse, grave, sonoro, canoro e belicoso - venha uma; e quero desse doce aí de framboesa que estes senhores estão a elogiar, e queijo, dê-me um troço de queijo, qual?, não sei, deixe-me provar, o colonial está borrachudo, deixe ver esse serrano, ótimo (oió, ó eu no desacordo ortográfico todo catita, esse que não interessa nem a um menino que se chamasse jasus), mas vou notando que os intelectos da blogosfera lusa têm o gene da dislexia, o que não deixa de ser tão de acordo com o povo nosso, alvíssaras à dislexia, por mim está muito bem, quando na verdade tudo isso já pouco me interessa, quando o que me apetece é a festa entre amigos, a cumplicidade, o carinho, e o deixarem-me sossegado, ele já disse que não gostam que lhe peguem na mão, por que insistem?
sexta-feira, 1 de Maio de 2009
quinta-feira, 30 de Abril de 2009
a verdade mora ao lado ou a mais bela frase do dia
o problema é que o vírus é uma mistura de ave com porco.
dona bela, águas de moura,
anotado pelo meu amigo ginginha.
quarta-feira, 29 de Abril de 2009
murmurações
para o vício
existências singulares também se fazem disto:
parti um dente a comer muesli.
na embalagem dizia granola.
nunca devia ter deixado as farinhas lácteas.
meu rico nestum.
fui ao dentista, disse-lhe: quebrei o dente a tomar o pequeno-almoço; o que eu disse foi: quebrei o dente a tomar o café da manhã; mas juro que não estava comendo pedras (assim mesmo, todo gerúndio). um gajo sem dente dá-lhe para ficar amaneirado, que não é o mesmo que dizer "à maneira", se bem que às vezes sim, depende se for no miratejo, por exemplo, ou na nazaré - é style é.
ali na favela do morro da cruz também.
parece que o que sobra do dente não vai prestar para sustentar restauração. é um dos lá de trás, um bom amigo que moía picanha como ninguém. até porque estava desvitalizado, que é uma maneira assaz simpática de dizer: morto.
antes atrás que à frente, pensei eu, mas depois achei que a frase era dúbia, e é preciso ter cuidado com o dúbio, que é um tipo excitável. duvidoso. ou duvidável, diria amigo meu da mais fina estirpe. ainda hoje, aliás, falei com ele: apanhou-me a caminho do banho, ali no quadrado do gmail, quando vinha espreitar se recebera um mail esperado. convite: para imagem e voz.
foi a minha primeira vez. e, como tantas outras primeiras vezes em tantas coisas outras que envolvem o face a face, um gajo estranha-se, todo desfazado, consternado, constrangido e até confrangido.
eu fui ali ao priberam dar uma olhada naquelas duas últimas malandras, o constrangido e o confrangido, porque não estava certo do que cada uma significava, confundo-as sempre. e que vi lá?
palavra do dia
palavra do dia?
palavra do dia: vacuidade.
palavra do dia
vacuidade (u-i)
s. f.
1. Estado de vácuo.
2. Carácter do que é intelectualmente vazio.
3. Fig. u-i.
voltando ao dentista: parece que vou ter que fazer uma coroa. já? não pensei que fosse ser promovido tão depressa.
e lá falámos, e via-o ali na tela inteira, o amigo, uma cabeçorra na tela inteira, não pelo tamanho da cabeça, entenda-se, mas pela colocação da câmera, num close up levado às suas consequências mais extremas.
quais são as consequências mais extremas?
(- apanhei-te).
e até lhe disse: estás bonito, pá.
eu sempre defendi que quanto menos píxeis melhor.
às vezes sou torcido, como diz a minha mãe, fazendo um estranho gesto ao dobrar o indicador em riste.
com esta do dente é que eu não contava. mas se é para ter um dente de cerâmica, vou consultá-lo sobre a possibilidade de ser em porcelana da china. é o toque.
melhor é pôr um dente d'alho.
e depois, como era a minha primeira vez, e a propósito de virgindades, o amigo enviou-me isto de uma tal margarida menezes. fiquei com um ódio à moça - não um ódio escrito, mas um ódio com sua representação física, praticamente visceral; levantei-me, andei às voltas pela casa, tive que parar para um café e respirar fundo.
é dum gajo ir aos arames.
ou em arame enfarpelado.
:> sorriso em v.
vou treinando o sorriso em v, que não deixa ver o buraco.
o espaço desocupado na fileira.
sou o azia. tenho vinticinco anos. falta-me um dente.
boa noite.
mas depois vi isto, dica da revista que entretem a espera no consultório, mais uma para o clube das virgens, quase 48 anos, nunca foi beijada*. olha, que engraçado, parece a adília lopes.
mas em estrondoso.
a lágrima sambou no olho.
depois levantei-me e fui lavar a loiça, vamos lá rapazote que a vida não é isto.
* "mas isso não é propaganda!". que dignidade.
uma rua que passa disso
é a rua onde habita esse peso pesado da blogosfera (a chegar aos cem quilos assim que a crise passe) que dá pelo nome de irmão lúcia, e que agora coloca à venda a sua casa. para habitação ou museu. ide lá espreitar, no mínimo matais a curiosidade sobre a toca do bicho.
terça-feira, 28 de Abril de 2009
dass
fui para o centro e esqueci-me de levar dinheiro ou cartão. não pude passar no mercado, não comprei camarão. e agora, como faço esse bobó?
cont.
sombra
insistia que sombra era dele, só dele. é possível que seja só o que temos; e o tanto que as tememos.
domingo, 26 de Abril de 2009
o ponto da citação e as bienais de arte
você é apresentado ao pintor transvanguarda e vê logo que ele é um pobre-diabo, semi-alfabetizado, sem qualquer informação sobre altas estéticas pictóricas, acredita sinceramente que galileu era marido de galiléia e nem sabe que a água tem memória. só um pergunta, aqui entre nós: pode-se ser transvanguarda numa coisa só e idiota em tudo o mais?
millôr
gata lá de casa
pergunto pela gata deles, a minha mãe responde: oh, está uma malandra tão esperta, entende tudo o que a gente diz. surpreender-me-ia que entendesse, não conhecesse eu os enunciados.
aos domingos
vamos petiscar pensamentos, preceitos, máximas, raciocínios, considerações, ponderações, devaneios, elucubrações, cismas, disparates, idéias, introspecções, tresvarios, obsessões, meditações, apotegmas, despropósitos, apodos, desvarios, descocos, cogitações, plácitos, ditos, sandices, especulações, conceitos, gnomas, motes, proposições, argumentos, filactérios, reflexões, escólios, conclusões, aforismos, absurdos, memórias, estultilóquios, alogias, despaupérios, aquelas, insultos, necedades, dislates, paradoxos, prótases, sofismas, singularidades, miopias, estultícias, silogismos, tergiversações, enormidades, paranóias, leviandades, imprudências, incoerências, desabafos, galimatias, heresias, hidrofobias, sofismas e dizidelas, da dialética do irritante guru do meyer. em havendo culpados, é falar com o senhor millôr e com este senhor aqui, mais a sua generosidade que um dia me fez chegar pelo correio uma bíblia do caos.
aos domingos com o guru do méier
aborígine é a maneira pejorativa dos conquistadores chamarem o dono da propriedade.
millôr
sábado, 25 de Abril de 2009
traz mais duas
repetia-se muitas vezes mais uma?, mais uma, anuia olhando-te o colo, a camisa de botões abertos, dizias: estava a gostar deste livro mas parei, não era o momento, é livro de inverno, eu tragava o cigarro com força, passava-te a mão pela pele da perna, apertava-te a carne musculada, sentia o poder da raça sob a palma, atiravas o cigarro para longe, recostavas-te na cadeira, olhar lúbrico, saía-te por tudo e por nada um foda-se, rias, dizias alto: um caralho muito grosso é mau de chupar, lembro-me de ter pensado deve querer mignon a gaja, mas depois voltei ao livro, ao teu de inverno, ainda o tenho por ler, mordi-te a sophia ao canto da orelha: terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo, tiras mais um cigarro, sopras uma ladainha quase imperceptível, se não seremos nunca os deuses capazes de os viver, ao menos no voo cego a nada a gente... coça a coceira, interrompo, peço traz mais duas que eu não me posso levantar, ela percebe mas insiste em olhar, quer a confirmação de um membro erecto a debater-se com a ganga das calças, o molde, de molde a, penso: está amoldeçoado, estão geladas, as cervejas, não resistes a apertar-me sobre as calças, vou fundo no cigarro, ficas tão querido entre o tesão e o constrangido, não sei se tem assim tanta graça, onde é que deixaste o carro?

o novo romance de chico buarque, o novo cd de caetano veloso e a entrevista do millôr, que nega ter uma obra - "é coisa de pedreiro".

Não trema em 2009
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Dois pingüins dão adeus ao mais misterioso dos sinais diacríticos,
mas não sabem ainda onde pô-lo, ou pólo (Sul)
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Dois pingüins graúdos da cultura nacional - representantes de uma cervejaria e de uma revista - conversam à beira de um iceberg.
"Onde fica o pólo Norte?", pergunta o primeiro.
O pingüim da revista contempla com tristeza o amigo. Sem se importar com os traços evidentes de bebida no bafo do colega, explica a ele que não há mais necessidade de diferenciar o substantivo "pólo" (aprazível paragem de veraneio de qualquer pingüim encalorado) da antiga preposição aglutinada polo (por+o), destronada por "pela", sem contar a combinação de pôr e lo, "polo" - como em: "Onde devo pô-lo, meu suéter pólo?"
"No fim do mês será tudo sem acento", esclarece.
"Qüem, qüem", balbucia o cervejeiro, o olhar perdido numa aurora austral.
"Não!", subleva-se a ave letrada. "Não: o correto agora é 'quém, quém'."
"Quem o quê?", indaga o bêbado.
Tomado pela sensação de dever para com sua espécie - uma das mais prejudicadas pelo novo acordo ortográfico -, o pingüim da revista pega o amigo pela asa e põe-se a explicar as mudanças pelas quais passou a língua portuguesa desde o início do século XX:
"Até 1911, você seria um penguím. Havia também uma porção de ípsilons e pê-agás na língua. Pois os portugueses resolveram botar ordem na casa. Só que o acordo de 1911 não foi adotado no Brasil, que seguiu falando um português antigo e pomposo."
O amigo o encara com o semblante de um pingüim que bateu a cara num iglu, se iglu houvesse no pólo - ou polo - Sul.
"No início da década de 40, acadêmicos portugueses e brasileiros resolveram unificar a língua e assinaram um acordo que colocaria, enfim, os pingos nos is das suas, deles, diferenças ortográficas. No entanto, por se tratar de acadêmicos, e ainda por cima lusos e brasílicos, o acordo não unificou nada.
"Mas nessa época eu ainda era um penguím?"
"De maneira alguma. O tratado de 1943 marcou a chegada do que é o sinal diacrítico mais importante da história, pelo menos no que diz respeito à nossa espécie: o trema."
Seu colega põe-se a chacoalhar a cauda, e depois o corpo inteiro. "Assim?", pergunta.
O pingüim da revista abre seu exemplar do Dicionário Houaiss, um tanto amassado pelo uso, e recita: "O trema é um sinal diacrítico, usado sobre a letra u, dos dígrafos gu e qu, nos vocábulos em que essa letra, seguida de e ou i, é pronunciada: agüentar, cagüira, eloqüente, qüinqüenérveo." "Parece-me uma coisa suspeita", diz o outro pingüim, finalmente despertando para a magnitude do problema. "Qüinqüenérveo?"
O sóbrio pingüim prossegue, satisfeito: "E a coisa não para por aí."
"Para por o que aonde?"
"Não! 'Para', do verbo parar, em oposição à preposição 'para'. O acento que diferenciava certas palavras também não existe mais, lamentavelmente."
O outro pranteia o fim do acento diferencial, em solidariedade.
Continua o pingüim da revista:
"E quem sai perdendo somos nós, os pingüins brasileiros. Portugal, talvez por não ter pingüins, aboliu o trema em 1946. Os esfeniscídeos nacionais tornaram-se os únicos a carregar o estandarte dessa tradição, que em certos países tem o mesmo estatuto de outros diacríticos mais badalados, como a cedilha e o til. Na Alemanha, não se anda duas quadras sem um trema. Na França, é possível andar duas quadras, mas não se sai do arrondissement sem um bom par de tremas, ou seja, quatro mimosas bolinhas
"Mas na Alemanha", retruca sorrateiramente o amigo da cevada, "o trema tem uma função diferente. Conhecido como Umlaut, ele pousa sobre as vogais a, oe upara indicar a mudança de som. A Gisele Bündchen, por exemplo, seria pronunciada "Bundchen" se não fosse o Umlaut.
O retruque deixa o pingüim sabichão sem palavras. Ambos imaginam um mundo sem pólo, sem trema e sem Gisele Bündchen.
"Mas e de quem foi essa idéia infeliz de abolir o trema?", pergunta, de súbito, o mais burrinho, que aos poucos atenta para o golpe que a nova regra assestará na auto-estima pingüinácea.
"Na verdade uma ideia, já que os ditongos abertos ei e oi também não levam mais acento. O fim do trema foi - arram! - uma epopeia. Em 1971, cortaram um bocado de acentos, os mais divertidos, na minha opinião. Imagina, aceitar gêlo sem chapeuzinho, foi difícil. Mas por motivos que nenhum pingüim jamais soube, o trema ficou."
O outro pingüim, cada vez mais apegado ao seu trema, imagina que perdê-lo será o equivalente, até pela semelhança, a perder seus testículos.
Imbuído de sentimentos solidários, a ave da revista (com ou sem trema, o pingüim segue sendo uma ave) improvisa um palanque de neve e proclama: "Nosso dever é assegurar uma transição civilizada dentro da categoria. Há uma legião de pingüins confusos por aí, à mercê de toda sorte de faux pas ortográficos. Embora se torne obrigatório apenas em 2013, ano que vem já está valendo, e em 2010 todos os livros de escola estarão despidos de tremas. Os portugueses têm até 2014."
"Eu vou segurar o meu trema até o último minuto", decidiu o cevador.
"Não seja um pingüim anacrônico. O ano praticamente acabou, o acordo ortográfico está aí. Que desejemos boas-vindas às novas palavras. Feiura, enjoo, paleozoico, micro-ondas. Vão chegando, a casa é sua."
"E Piauí?"
"O que tem?"
"Leva acento?"
"Passou raspando.
Piauí foi salva por uma exceção. Palavras com o i e o u finais e tônicos, precedidos de ditongo aberto, perderam os agudos. Mas só as paroxítonas. E Piauí, como você está careca de saber, é oxítona. Tuiuiú também se safou. Mas baiuca vai ter que se acostumar."
"Onde fica o pólo Norte?", pergunta o primeiro.
O pingüim da revista contempla com tristeza o amigo. Sem se importar com os traços evidentes de bebida no bafo do colega, explica a ele que não há mais necessidade de diferenciar o substantivo "pólo" (aprazível paragem de veraneio de qualquer pingüim encalorado) da antiga preposição aglutinada polo (por+o), destronada por "pela", sem contar a combinação de pôr e lo, "polo" - como em: "Onde devo pô-lo, meu suéter pólo?"
"No fim do mês será tudo sem acento", esclarece.
"Qüem, qüem", balbucia o cervejeiro, o olhar perdido numa aurora austral.
"Não!", subleva-se a ave letrada. "Não: o correto agora é 'quém, quém'."
"Quem o quê?", indaga o bêbado.
Tomado pela sensação de dever para com sua espécie - uma das mais prejudicadas pelo novo acordo ortográfico -, o pingüim da revista pega o amigo pela asa e põe-se a explicar as mudanças pelas quais passou a língua portuguesa desde o início do século XX:
"Até 1911, você seria um penguím. Havia também uma porção de ípsilons e pê-agás na língua. Pois os portugueses resolveram botar ordem na casa. Só que o acordo de 1911 não foi adotado no Brasil, que seguiu falando um português antigo e pomposo."
O amigo o encara com o semblante de um pingüim que bateu a cara num iglu, se iglu houvesse no pólo - ou polo - Sul.
"No início da década de 40, acadêmicos portugueses e brasileiros resolveram unificar a língua e assinaram um acordo que colocaria, enfim, os pingos nos is das suas, deles, diferenças ortográficas. No entanto, por se tratar de acadêmicos, e ainda por cima lusos e brasílicos, o acordo não unificou nada.
"Mas nessa época eu ainda era um penguím?"
"De maneira alguma. O tratado de 1943 marcou a chegada do que é o sinal diacrítico mais importante da história, pelo menos no que diz respeito à nossa espécie: o trema."
Seu colega põe-se a chacoalhar a cauda, e depois o corpo inteiro. "Assim?", pergunta.
O pingüim da revista abre seu exemplar do Dicionário Houaiss, um tanto amassado pelo uso, e recita: "O trema é um sinal diacrítico, usado sobre a letra u, dos dígrafos gu e qu, nos vocábulos em que essa letra, seguida de e ou i, é pronunciada: agüentar, cagüira, eloqüente, qüinqüenérveo." "Parece-me uma coisa suspeita", diz o outro pingüim, finalmente despertando para a magnitude do problema. "Qüinqüenérveo?"
O sóbrio pingüim prossegue, satisfeito: "E a coisa não para por aí."
"Para por o que aonde?"
"Não! 'Para', do verbo parar, em oposição à preposição 'para'. O acento que diferenciava certas palavras também não existe mais, lamentavelmente."
O outro pranteia o fim do acento diferencial, em solidariedade.
Continua o pingüim da revista:
"E quem sai perdendo somos nós, os pingüins brasileiros. Portugal, talvez por não ter pingüins, aboliu o trema em 1946. Os esfeniscídeos nacionais tornaram-se os únicos a carregar o estandarte dessa tradição, que em certos países tem o mesmo estatuto de outros diacríticos mais badalados, como a cedilha e o til. Na Alemanha, não se anda duas quadras sem um trema. Na França, é possível andar duas quadras, mas não se sai do arrondissement sem um bom par de tremas, ou seja, quatro mimosas bolinhas
"Mas na Alemanha", retruca sorrateiramente o amigo da cevada, "o trema tem uma função diferente. Conhecido como Umlaut, ele pousa sobre as vogais a, oe upara indicar a mudança de som. A Gisele Bündchen, por exemplo, seria pronunciada "Bundchen" se não fosse o Umlaut.
O retruque deixa o pingüim sabichão sem palavras. Ambos imaginam um mundo sem pólo, sem trema e sem Gisele Bündchen.
"Mas e de quem foi essa idéia infeliz de abolir o trema?", pergunta, de súbito, o mais burrinho, que aos poucos atenta para o golpe que a nova regra assestará na auto-estima pingüinácea.
"Na verdade uma ideia, já que os ditongos abertos ei e oi também não levam mais acento. O fim do trema foi - arram! - uma epopeia. Em 1971, cortaram um bocado de acentos, os mais divertidos, na minha opinião. Imagina, aceitar gêlo sem chapeuzinho, foi difícil. Mas por motivos que nenhum pingüim jamais soube, o trema ficou."
O outro pingüim, cada vez mais apegado ao seu trema, imagina que perdê-lo será o equivalente, até pela semelhança, a perder seus testículos.
Imbuído de sentimentos solidários, a ave da revista (com ou sem trema, o pingüim segue sendo uma ave) improvisa um palanque de neve e proclama: "Nosso dever é assegurar uma transição civilizada dentro da categoria. Há uma legião de pingüins confusos por aí, à mercê de toda sorte de faux pas ortográficos. Embora se torne obrigatório apenas em 2013, ano que vem já está valendo, e em 2010 todos os livros de escola estarão despidos de tremas. Os portugueses têm até 2014."
"Eu vou segurar o meu trema até o último minuto", decidiu o cevador.
"Não seja um pingüim anacrônico. O ano praticamente acabou, o acordo ortográfico está aí. Que desejemos boas-vindas às novas palavras. Feiura, enjoo, paleozoico, micro-ondas. Vão chegando, a casa é sua."
"E Piauí?"
"O que tem?"
"Leva acento?"
"Passou raspando.
Piauí foi salva por uma exceção. Palavras com o i e o u finais e tônicos, precedidos de ditongo aberto, perderam os agudos. Mas só as paroxítonas. E Piauí, como você está careca de saber, é oxítona. Tuiuiú também se safou. Mas baiuca vai ter que se acostumar."
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andré conti
revista piauí
dezembro.08
quinta-feira, 23 de Abril de 2009
quarta-feira, 22 de Abril de 2009
almoço
estava a pensar que poderia ser um esparguete ao azeite e alho, tenho até ali um azeite temperado com manjericão, uma coisinha delicada, mais meia-dúzia de pinhões com o saboroso grana acabadinho de ralar por cima, pobre grana que está reduzido a um pedacito trágico, mas eis que o corpo diz que não, que quer uma coisa que não come há anos, quer esparguete com ketchup, pode até ser com o queijo ralado tipo parmesão abandonado no armário, ou mesmo sem, lá vou ao frigorífico ver se existe ketchup, olho a validade, está bom
fui a correr pôr a massa, que já estava a tampa da panela no seu sambinha; não tenho esparguete. terminou. este fim-de-semana não fizemos compras. só fusili, parafuso.
é a última porção de fusili. ontem queria café para oferecer às pessoas que vieram cá a casa, mas também não havia. há dois fins-de-semana que não vamos ao mercado.
só sobra arroz. há três fins-de-semana que não vamos ao mercado.
fui a correr pôr a massa, que já estava a tampa da panela no seu sambinha; não tenho esparguete. terminou. este fim-de-semana não fizemos compras. só fusili, parafuso.
é a última porção de fusili. ontem queria café para oferecer às pessoas que vieram cá a casa, mas também não havia. há dois fins-de-semana que não vamos ao mercado.
só sobra arroz. há três fins-de-semana que não vamos ao mercado.
segunda-feira, 20 de Abril de 2009
domingo, 19 de Abril de 2009
almeida garrett e o close up
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caíam dum lado e de outro da sua face gentil aqueles graciosos anéis; e o resto do cabelo, que era muito, ia entrançar-se e enrolar-se com a singela elegância abaixo da coroa de uma cabeça pequena, estreita e do mais perfeito modelo.
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as sobrancelhas, quase pretas, também, desenhavam-se numa longa curva de extrema pureza; as pestanas longas e assedadas faziam sombra na alvura da face.
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almeida garrett, viagens na minha terra, cap. xii
o ponto da citação
no meio destas dissertações académico-literárias vem o A. a descobrir que para tudo é preciso ter fé neste mundo. diz-se neste mundo, porque, quanto ao outro, já era sabido.
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almeida garrett, viagens na minha terra, cap. vi
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